Um último mate para Dom Ortega
A geada amanhecera espessa sobre o pampa, pintando de branco cada palmo da vastidão que se estendia para além das cercas. Era como se o tempo tivesse parado, e o campo se transformado num grande lençol de algodão congelado, onde o gado, agrupado em torno do galpão de madeira antiga, exalava o bafo quente que se perdia em pequenos sopros na névoa.
Naquele galpão da velha estância, sob um telhado que rangia ao menor uivar do vento, Dom Ortega permanecia sentado como parte da paisagem — imóvel, envolto em um poncho de lã crua que ele próprio ganhara de seu pai nos tempos de guri. Ao lado, um cusco caramelo, companheiro de longa data, permanecia deitado. À sua frente, o pampa se espreguiçava sob os primeiros raios tímidos do sol, que vinham tingir de dourado aquela alvura do chão.
— Trouxe o mate, pai — disse Clara, surgindo na porta do galpão com a chaleira fumegante numa das mãos e a cuia na outra mão. Com o rosto pálido como àquela geada fria, ela usava um vestido antigo, branco já amarelado com o tempo, e nos ombros, um xale vinho que contrastava com a frieza do mundo.
Dom Ortega virou lentamente o rosto, e os olhos azul-acinzentados brilharam diante da filha. Havia ternura neles, e também despedida.
— E água boa? — resmungou ele, com um sorriso enviesado no canto da boca.
— Da fonte do capão, como a mãe fazia.
Ela se sentou ao seu lado e começou a cevar o mate. — E do jeito que o senhor gosta: amargo, forte...e com silêncio.
O velho assentiu com um breve movimento de queixo. Pegou a cuia com mãos nodosas e lentas, sorveu o primeiro gole e fechou os olhos, saboreando o gosto do passado e das lembranças que vinham à tona.
O silêncio se prolongou, cortado apenas pelo mugido distante de um boi e o estalo ocasional da lenha em um fogo de chão dentro do galpão, diante das cocheiras.
— Hoje faz quarenta anos que tua mãe morreu — disse ele, enfim. — E essa madrugada eu sonhei com ela. Não como velha, como no fim… mas como quando eu a conheci.
Clara baixou os olhos. Sabia que aquele seria um daqueles dias em que as palavras de Dom Ortega carregavam mais do que lembrança. Carregavam despedida. Carregavam as memórias de anos naquela estância.
— Tu nunca me contou como foi. Só dizia que foi num campo qualquer, entre uma doma e outra.
Dom Ortega sorriu com os seus olhos cansados perdidos na distância.
— Foi na estância dos Silveira, no inverno tinhoso de 64. "Tavam" com um tordilho que ninguém domava. Me chamaram por fama — besta que eu era. Achava que podia montar qualquer coisa que tivesse pêlos e patas. Cheguei lá me achando um Centauro, com a espora reluzindo.
Fez uma pausa, como quem degusta cada memória.
— No segundo dia de lida, ela apareceu. Montada numa égua baia de marcha suave, seus cabelos soltos ao vento e um xale marrom por cima dos ombros. Nem parecia coisa desse mundo. Me olhou de cima da sela e disse: “Então o senhor é o domador do diabo?”
— E o senhor disse o quê? — perguntou Clara, sorrindo.
— Nada. Eu travava diante de qualquer mulher bonita. Só consegui balançar a cabeça. Ela riu. E o riso dela… Bah, guria...era como galope de cavalo solto no campo — livre, natural.
Mais um gole de mate. O vapor da cuia se misturava com o da sua respiração cansada.
— Tentei montar aquele tordilho naquele mesmo dia. Tentei mostrar que eu era macho, o "domador do diabo", como ela falou. Dei três voltas no piquete e voei como um saco de batata. Quebrei o braço, perdi dois dentes e ganhei um apelido dos peões. Mas ganhei mais do que isso.
Clara olhou para o pai, agora com os seus olhos esverdeados como os da falecida mãe, marejados.
— Ela cuidou de mim três dias. Trazia mate pela manhã, trocava os panos do braço com delicadeza. Dormia no mesmo galpão que eu, na cama de madeira do capataz. Cada noite, contava uma história. De quando era menina e corria pelos fundos da estância. De quando quis ser domadora e o pai não deixou. De como gostava de sentar no campo e escutar o sopro do minuano.
O silêncio voltou a pairar, como ave sobre o potreiro.
— E num final de tarde, com o céu tingido de laranja e cheiro de chuva no ar, ela se sentou ao meu lado, segurou minha mão e disse: “Seu Ortega… eu sei que o senhor vai embora quando sarar. Mas se eu lhe pedir...o senhor me leva junto?”
Dom Ortega deixou que a emoção lhe quebrasse a voz.
— E eu disse que sim. Mesmo sem saber pra onde ia. Mesmo sem saber como seria. Eu disse que sim. E nunca mais larguei.
Clara encostou a cabeça no ombro dele, com ternura, com amor de filha pra pai.
— Eu queria ter conhecido ela adulta. Só lembro da voz… e do cheiro de flor de pessegueiro.
— É, minha filha… Era isso mesmo que ela deixava no ar. Mesmo no frio do inverno.
O velho suspirou fundo, os olhos se enchendo de céu.
— Agora, toda vez que sopra o minuano no final de junho… eu escuto a risada dela no vento. E penso: “ela vem me buscar”. E eu fico esperando.
A cuia já estava vazia. O velho entregou-a nas mãos da filha, com um gesto brando. O sol começava a subir devagarzito, mas o frio ainda dançava nas sombras do galpão, enquanto o gado se aglomerava sob os campos cobertos de geada do lado do galpão.
— Quando eu me for, Clara… não fecha a varanda. Deixa sempre a chaleira no fogo. Um último mate precisa sempre estar quente.
Clara segurou a mão do pai com firmeza. O vento soprou forte pelo campo, fazendo ranger as tábuas da cerca e levantando um cheiro adormecido de flor e memória.
Dom Ortega fechou os olhos. E sorriu.
Fim.
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