Quando os ventos falam os nomes dos que partiram
Narrado por Clara Ortega
A tempestade chegou rasgando o céu ao meio, como faca nova cortando uma lenha úmida. Relâmpagos dançavam acima do potreiro e os trovões pareciam vozes antigas que berravam nos confins do pampa. O gado se encostava nos galpões, em busca de um abrigo, e até os cães se encolhiam sob a madeira da casa, como se soubessem que aquela noite não era comum.
Dentro da estância, avivava o fogo do fogão a lenha e aquecia a chaleira no canto da boca. O mate estava forte, amargo e quente, do jeito que meu pai gostava. Mas eu o tomava sozinha agora, e a solidão era como o cheiro de terra molhada: entranhava-se em tudo que é canto.
A ventania uivava pelas frestas da casa, sacudindo janelas e gemendo como um canto de alma. Enrolei-me no xale cor de vinho, o mesmo que cobriu meus ombros no enterro de Dom Ortega, e adormeci na cadeira de balanço, com a cuia ainda entre as mãos.
Foi então que sonhei.
Sonhei com o campo branco, mas não de geada, e sim de luz. Um campo santo, amplo e limpo, onde o horizonte não tinha fim e o céu se curvava sobre a terra como um abraço. Meu pai caminhava ali, firme e moço, como nos tempos de doma. Sua bombacha estufada pelo vento, o lenço encarnado dançando no pescoço, e nos olhos, aquela sua expressão de quem sabe bem aonde está.
De repente, à sua frente, surgiu minha mãe. Ela vinha montada em sua velha égua baia, seus cabelos longos como naquela fotografia que eu ainda guardo na moldura rachada do quarto. Trazia um chale branco sobre os ombros e um sorriso que parecia nascer do próprio céu.
Eles se olharam. Sem palavras, sem gesto exagerado. Apenas se olharam. E naquele olhar havia mais história do que todos os causos contados no galpão ao longo dos anos.
Meu pai tirou o chapéu. Minha mãe desceu da sela. Caminharam um em direção ao outro como dois rios que voltam a se encontrar no mesmo leito.
Ela pegou sua mão.
— Chegaste tarde, Dom Ortega — disse ela, com voz feita de vento e saudade.
— Cheguei no tempo certo, minha prenda. No tempo que Deus costura.
Eles se abraçaram no meio do campo de luz. E foi nesse abraço que o pampa floresceu. Onde antes era brancura, brotaram pastos verdes, lírios-do-campo, malvas, margaridas e pessegueiros em flor. A luz girou em torno deles como um redemoinho de paz.
Então foi que eu ouvi a voz do meu pai, como se falasse para mim, mesmo estando longe:
— Clara, filha… não temas. O mate nunca esfria onde há lembrança. Agora, você cuida da terra. E canta o que precisa ser cantado.
Despertei com um sobressalto. A tempestade havia passado, mas o ar ainda cheirava a trovão. As brasas do fogão ardilavam, e a chaleira cantava uma música solitária.
Levantei-me devagar, saí pela porta ainda entreaberta e caminhei até o galpão. O céu já abria em brechas, revelando algumas estrelas tímidas.
Lá dentro, Zeca estava sentado em um banco de couro, afinando a sua velha gaita. Usava uma camisa de algodão grosso e mantinha o olhar fixo no chão, como quem escuta coisas que não se dizem com palavras.
— Não dormiu, Zeca? — perguntei, com voz rouca de sonho.
— Não consigo dormir quando os trovões parecem chamar gente pelo nome — respondeu ele, com simplicidade. — A senhora sonhou?
Assenti. Sentei-me ao lado dele no banco.
— Sonhei com meu pai... e com minha mãe. Vi os dois se encontrando no campo do além. Como se o céu fosse o mesmo pampa, mas mais limpo. Mais vivo.
Zeca olhou para mim com olhos de quem entendia bem o que eu falava e não me achava uma louca.
— E estavam bem?
— Mais do que bem. Eles se acharam, Zeca. Se acharam sem pressa, como quem sabe que a eternidade é longa. Ele me disse pra não temer, e que o mate nunca esfria onde há lembrança.
Zeca passou a mão na aba do chapéu e depois na gaita.
— Isso dá música, minha senhora.
— Então canta, Zeca. Canta por eles. Canta pra eles. Eles sempre gostaram de ouvir tua cantoria nas rodas de mate aqui mesmo neste galpão.
Ele olhou para mim como quem pede licença ao silêncio e começou...a melodia nasceu lenta, como o galopar de um cavalo sereno que cavalga na cerração da manhã. E então ele cantou, com uma voz grave e embargada:
“No campo santo onde a luz floresce,
Dom Ortega encontrou sua flor.
De mãos dadas, no céu do pampa,
Se apagou o frio, ficou o amor.
Num céu de cerração prateada,
Onde o minuano sopra em paz,
Dois corações feitos de tempo
Se entrelaçaram, não voltam mais.
Ela chegou com riso e égua baia,
Ele tirou o chapéu com calor.
“Chegaste tarde, Dom Ortega?”
“No tempo justo, minha flor.”
Dançaram leves sobre os campos santos,
Entre pessegueiros em flor.
O céu se abriu, virou estância antiga,
Onde não há dor, só esplendor.
E aqui na terra ficou a filha,
Com um xale vinho e coração.
A sonhar com a rédea do tempo,
E o som da gaita em oração.
Pois quem ama um gaúcho verdadeiro,
Sabe que ele volta com o vento,
Num mate quente, num cheiro antigo,
Ou num sonho em noite de tormento.
Que o céu guarde esses dois campeiros,
Numa querência feita de luz.
E que a saudade, doce e branda,
Nunca mais me faça cruz."
Eu fechei os olhos. Deixei que as lágrimas viessem, mas desta vez, eram lágrimas de paz.
Lá fora, o vento soprava leve pelos corredores da estância.
E eu juro — juro por tudo que o pampa guarda — que naquele sopro, eu escutei um riso antigo, e o cheiro de flor de pessegueiro encheu o ar.
Fim
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