O acerto de contas
Era tarde da noite, mais precisamente já se passavam das vinte e três horas de uma noite fria e coberta de uma neblina densa que não deixava ver um palmo à frente dos olhos. Eu já estava naquela esquina há umas duas horas. Entre um cigarro e outro já tinha sido alvo de desconfiança de uma senhora do primeiro andar do prédio antigo da esquina. O segurança da casa noturna do meio da outra quadra também já me encarara umas inúmeras vezes antes da neblina cobrir tudo. Mas, a rua é pública, então até o momento, não tinha feito nada de errado.
Puxei a manga do meu sobretudo olhando as horas no meu relógio dourado que herdara do meu avô. Já marcava 23h05min e, à qualquer minuto, aquele verme passaria a corrente na porta do seu estabelecimento e atravessaria a rua em direção do seu carro, e único, estacionado naquela hora. É aí que chegaria a minha vez de agir. É aí que acabaria esta espera que já deixei se estender por tempo demais.
De onde eu estava puder escutar o tilintar da corrente sendo colocada na porta de grade. O verme fechou o cadeado, olhou para ambos os lados e atravessou em direção ao seu carro assobiando a melodia de um bom e velho rock"roll. Sorri neste momento. Ao menos o maldito tinha um bom gosto musical.
Olhei para os lados e para cima e notei que a senhora do prédio antigo me espiava por detrás de uma cortina florida. Quando viu que a encarei, se escondeu rapidamente e a luz amarelada que estava acesa no apartamento, deu lugar a escuridão. Coloquei a mão direita por dentro do meu sobretudo engatilhando meu revólver calibre 38. Dei a última tragada no cigarro e o joguei junto aos outros tocos na beira da calçada. Suspirei fundo e me desloquei à passos firmes pela calçada de pedra.
O verme apertou o botão do controle desarmando o alarme do veículo. Pousou a mão na maçaneta e tomou um tremendo susto ao me ver. "Você por aqui?", me disse ele petrificado. Parei à poucos metros dele já mais pro meio da rua. Puxei a arma de dentro do sobretudo e o maldito teve a audácia de sorrir e dizer que disso eu não seria capaz. Pobre criatura. Mal sabia que aquela altura da minha vida já não importava o que era certo ou errado.
Quando se deu conta de que eu não estava para brincadeira, tentou amenizar a situação pedindo para que eu me acalmasse, entrasse no veículo e pudéssemos conversar e resolver o que é que tivesse que ser resolvido. Tarde demais. Ele já tivera chances de resolver e simplesmente ignorou. Não pensei. Apertei o gatilho uma, duas, três vezes. O verme caiu furado de balas no tórax. Talvez se eu o fizesse sofrer um pouco mais seria melhor. Mas não. Escolhi tirar sua vida. Escolhi mandá-lo para o inferno, lugar onde eu sei que talvez nos encontraremos algum dia. Sim. Porque um verme daqueles só teria este destino possível. E eu sei que eu também.
Vi algumas luzes nos apartamentos vizinhos se acenderem. Me apressei em sumir dali. Mas antes me agachei diante daquele corpo que jazia em sangue e peguei um envelope que o desgraçado tinha no bolso do seu casaco...
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