No túmulo de Dom Ortega eu sentei e chorei

Narrado por Clara Ortega

Naquela manhã gelada, o silêncio era mais pesado do que nunca.

Eu apenas entrei para o galpão por alguns minutos colocar mais lenha no fogo de chão e deixar a chaleira para aquecer mais água  pro mate. Logo voltei. Ainda sentindo o chão de madeira que rangia sob os meus pés, encontrei a cuia deixada sobre o banco e, lá estava ele, como adormecido, o rosto voltado para o campo branco, coberto de geada. Os olhos cerrados, os dedos ainda enlaçados na bomba.

— Pai? — chamei, como quem não quer saber a resposta.

Aproximei-me devagar. A pele de suas mãos estava fria, de uma palidez que contrastava com o couro marcado pelo tempo. O poncho estava puxado até o peito, e sua expressão era serena, como quem finalmente havia reencontrado a paz. Me ajoelhei a seu lado, encostei minha testa na sua e deixei que o choro me viesse com o vento.

Ali, naquele exato instante, entendi o que significava a expressão "ficar órfã de chão".

Preparei o corpo com minhas próprias mãos. Lavei-lhe o rosto com pano morno, penteei-lhe o cabelo ralo com o mesmo pente de osso que ele usava desde guri. Vesti nele a camisa branca engomada, a bombacha cinza de suas domas, o lenço encarnado no pescoço e, por fim, coloquei em seus braços a cuia de erva nova, como ele gostava: amarga, quente, respeitosa...e silenciosa.

Quando o compadre Bento chegou, não dissemos sequer uma palavra. Ele me olhou nos olhos, tirou o chapéu e baixou a cabeça. Ajudou-me a colocar o corpo na carroça — o mesmo velho carro de bois com que íamos, quando criança, à vila comprar sal grosso e café.

Bento amarrou as cordas com mãos firmes, como se amarrasse uma história inteira ao fundo do mundo.

— Quer que vá contigo? — perguntou ele, voz baixa.

— Ele gostaria que tu fosse. — respondi, contendo o tremor na voz. — E com o cavalo baio na frente.

Preparei-me como minha mãe faria. Vesti um vestido de mangas longas com flores pequenas. Amarrei o xale cor de vinho sobre os ombros e coloquei o lenço branco na cabeça, como luto de filha de campanha.

A procissão saiu da estância ao meio-dia, em silêncio. Atrás da carroça, vieram os peões da estância montados em fila. Cada um com sua história com meu pai. Cada um com o olhar perdido no chão e o chapéu pressionado contra o peito.

O campo se abria diante de nós como um lençol de memórias. As árvores secas, os currais vazios, os riachos congelados. O gado agrupado nos olhando. Tudo parecia despedir-se.

O cemitério de campanha ficava no alto de um cerro, cercado por pedras soltas e cruzes escuras, tortas pelo tempo e pelo vento. Era um lugar sagrado, onde o gado não passava e o silêncio era tão antigo quanto as primeiras casas de barro da região.

O caixão foi retirado com respeito e colocado à beira do túmulo já aberto, cavado à mão pelos dois filhos de Bento que saíram à galope bem antes da procissão. O cheiro da terra molhada se misturava com o da lenha do incenso que o velho padre Cícero trouxe. Vestido com batina preta e boina de lã, ele abriu seu livro surrado e benzeu o corpo com água benta.

— Que os ventos do sul levem este homem em paz, e que a terra que ele tanto serviu o acolha como um filho.

Quando o padre terminou, todos ficaram em silêncio. Até que Bento me tocou no ombro.

— É tua vez, filha.

Me ajoelhei na beira do túmulo. O barro manchou o vestido, mas eu não me importei. O caixão repousava ali, simples e firme, coberto por um lenço com o brasão da estância.

Toquei a madeira. Fechei os olhos.

— Pai… eu sei que o senhor tá aqui me escutando. Sei porque o vento me disse. Sei porque o cheiro do pessegueiro voltou, mesmo sem sequer uma flor por perto.

As lágrimas escorriam, mas não me traziam fraqueza. Traziam voz.

— Eu lembro de cada ensinamento. Do primeiro mate, do jeito certo de lidar com um cavalo bravo, da tua forma de pedir silêncio sem levantar a voz. Lembro do teu riso, que era raro, mas cheio de campo. Lembro da tua dor quando a mãe se foi... e da tua força por não ter se deixado ir junto.

Permaneci ali por longos minutos. Quando levantei os olhos, vi que Zeca, o mais jovem dos peões, havia tirado a gaita da capa de couro e se preparava para tocar.

— Ele pediu isso? — perguntei, surpresa.

Zeca assentiu, com a voz embargada.

— Disse que era pra tocar o chamamé da despedida. Aquele do tempo da tua mãe.

A música ecoou pelo campo. Um chamamé simples, melancólico, tocado com respeito. As notas da gaita pareciam misturar-se ao vento, e eu juro que, por um instante, ouvi o riso da minha mãe entre os galhos. Aquele riso que transmitia paz.

Peguei a cuia que ele deixou. Soprei levemente. O vapor já se fora, mas o gosto permanecia.

Derramei o mate sobre o caixão, gota por gota, como bênção e memória.

— Um último mate, pai.

Então, como quem entende que tudo se cumpriu, me sentei na beira do túmulo, o xale bem apertado nos ombros, o rosto lavado de lágrimas.

E ali, no silêncio de um campo que agora era também ausência, eu chorei.

Chorei com toda a dor que havia, mas também com todo o amor que ele me ensinou a sentir.

Porque no túmulo de Dom Ortega não havia só um corpo enterrado.

Havia um tempo, uma linhagem, um mundo que agora era meu para guardar.

Fim

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