Minha mente e outros buracos negros
FADE IN:
EXT. CONSULTÓRIO - DIA
Um consultório pequeno, mas confortável. Uma mesa de centro, retangular, de vidro, com flores vivas e coloridas, separam duas pessoas. De um lado, a TERAPEUTA ANDREA (50), loira de cabelos lisos e um par de olhos azuis por trás de óculos charmosos. Ela usa uma saia comprida e camisa branca e segura uma caneta e um bloco de anotações. Do outro lado o paciente JOHN (25), cabelos pretos e barba rala, usando uma calça jeans surrada e uma camiseta preta. Ele parece confortável sentado na poltrona.
John suspira profundamente, olhando para o chão antes de começar a falar.
JOHN
Sabe, eu sempre imaginei como seria minha vida aos 25 anos. Pensei que teria um emprego estável, que poderia cuidar da minha família, talvez até mesmo planejando uma viagem a dois com a minha namorada. Mas aqui estou eu, sentado em um consultório, lutando para expressar tudo o que estou sentindo.
ANDREA
Ora, John. Você está progredindo. Vamos continuar de onde você parou na última sessão. Falava -me do seu pai...
JOHN
Meu pai… Ah, meu pai. A perda dele ainda está tão fresca. Ele era meu herói, meu conselheiro, meu exemplo. Desde que se foi, há um vazio que nada parece preencher. Às vezes, me pego esperando encontrá-lo na esquina, como se ele pudesse aparecer a qualquer momento, me dando conselhos sábios, sabe?sobre o que fazer agora. E quando penso nele, a dor simplesmente volta como um soco no estômago.
ANDREA
As perdas familiares não são fáceis de superar. Na verdade nenhuma perda é fácil.
Mas pensa, você ainda tem sua mãe. Ela está aqui. Está viva.
JOHN
A minha mãe… Ela tem lutado contra essa doença. Ver alguém que eu amo tanto se deteriorar é devastador. Eu sei que ela está tentando ser forte, mas me sinto despreparado. Não sei como lidar com isso. A cada visita no hospital, sinto que a cada dia estou perdendo um pouco dela. E o pior é saber que eu deveria ser o suporte dela, mas, na verdade, eu me sinto tão perdido quanto ela.
John se mexe na poltrona, procurando uma posição diferente. Observa o lustre no alto por alguns instantes.
JOHN (CONT'D)
E com tudo isso, a pressão de estar desempregado só faz tudo parecer ainda mais pesado. Eu enviei currículos, participei de entrevistas e nada. Às vezes, acho que a vida está me dando um grande tapa na cara, como se estivesse dizendo: “Acorda! É assim que as coisas são.” E a sensação de não estar conseguindo ajudar financeiramente é esmagadora. Eu deveria estar cuidando da minha mãe e da minha namorada, mas, em vez disso, só me sinto como um peso.
Andrea anota algo em seu bloco. Passa a mão nos cabelos, ajeita os óculos. Encara John, que permanece encarando o lustre.
JOHN (CONT'D)
E a minha namorada… Ela está grávida. A possibilidade de um novo ser humano é ao mesmo tempo linda e aterrorizante. A ideia de ser pai é uma bênção, mas a pressão de sustentar uma família enquanto tudo parece desmoronar ao meu redor é assustadora. Eu quero que nosso filho tenha um pai que seja forte, que consiga dar a ele tudo o que precisa. Mas, honestamente, estou começando a duvidar se sou capaz disso.
John suspira novamente, com lágrimas nos olhos.
JOHN (CONT'D)
Eu só… eu só quero encontrar um caminho. Um jeito de lidar com tudo isso. Algumas vezes, sinto que estou em um túnel escuro... e na real , eu não sei se há uma luz no fim. Mas talvez, só talvez, estar aqui hoje, falando sobre o que me atormenta, seja um passo. Um passo, mesmo que pequeno, em direção a algo melhor.
ANDREA
Com certeza é, John. Como eu disse, sua progressão é nítida, é confortante.
John lança o corpo para a frente. Fica um pouco inclinado com ambos os cotovelos apoiados sobre os joelhos. Faz uma pausa nas palavras, parecendo mais leve ao compartilhar.
JOHN
Obrigada por me ouvir.
Andrea sorri.
ANDREA
É o meu trabalho, John.
John suspira novamente, a voz tremendo um pouco. Volta escorar as costas no encosto da poltrona.
JOHN
Veja, eu… eu não sei como continuar. A verdade é que às vezes eu sinto que estou no limite, como se a pressão estivesse me esmagando. Quando eu olho para tudo o que está acontecendo, sinto como se não houvesse saída. A dor, as perdas e essa sensação de um peso enorme sobre os meus ombros… Começo a achar que talvez não tenha mais como suportar.
Andrea se acomoda melhor em sua cadeira. Faz mais uma anotação em seu bloco, tira os óculos e coloca sobre a mesinha de centro.
ANDREA
Explique melhor, John.
JOHN
Muitas vezes, me pego pensando se a melhor solução não seria me afastar de tudo isso. Eu sei que isso parece extremo, mas a ideia de um alívio, mesmo que temporário, é tentadora. Eu só queria que essa dor fosse embora. Que as lembranças do meu pai não doessem tanto, que a realidade da doença da minha mãe não pesasse tanto em mim, que a responsabilidade da paternidade não me deixasse tão paralisado.
ANDREA
Você não pode impedir o progresso feito até agora.
JOHN
É eu sei...eu sei que isso estragaria tantas vidas ao meu redor. A minha mãe, a minha namorada, o meu filho que está por vir… Mas, às vezes, a escuridão parece ser a solução mais atraente. Eu vejo as pessoas passando, levando suas vidas, e eu me sinto preso em um ciclo interminável de tristeza e desespero.
John interrompe suas palavras. Seu olhar de desespero encara a terapeuta.
JOHN (CONT'D)
Você não entende? A sensação de estar preso em um labirinto, onde não se encontra a saída. Às vezes, a ideia de libertação se torna tão clara, como uma luz que brilha, mas que parece inatingível. Nesses momentos, o pensamento de dar um fim a tudo começa a me consolar. Eu só quero parar de sentir essa dor incessante. Não quero que isso se torne uma carga para quem eu amo.
John toma um profundo fôlego. Sua voz um tanto rouca.
JOHN (CONT'D)
Eu sei que isso é um grito de desespero, e parte de mim quer acreditar que posso encontrar ajuda, que posso mudar. Mas em alguns dias, essa voz de desespero é tão alta que eu não consigo ouvir nada mais. E então, o que acontece quando eu saio daqui… e não tenho certeza se quero voltar?
John se levanta, dando uma última olhada para a terapeuta. Seus olhos estão carregados de lágrimas. Ele levanta a manga da camisa e olha as horas.
JOHN (CONT'D)
Eu só preciso… de um tempo. Um momento para pensar.
ANDREA
Como queira, John. Mas ainda temos tempo.
Andrea faz uma outra anotação.
John caminha até a porta. Se vira e encara a terapeuta.
JOHN
Obrigado por tanto. Você foi a única capaz de me ouvir nos últimos meses.
Andrea se levanta, larga o bloco de anotações sobre a mesinha de centro.
ANDREA
Te espero amanhã?
John sorri. Abre a porta e sai.
CORTA PARA:
EXT. RUA - DIA
Movimento intenso de carros. Buzinas. Motores rugindo. Pedestres indo e vindo.
John desce um lance de cinco degraus em frente à um edifício muito alto. Parece confuso. Para no meio da calçada olhando para os lados, parecendo sem destino. As pessoas passam por ele, que parece invisível aos olhos dos outros.
John caminha lentamente pela rua. Parece sentir o peso da pressão enquanto anda e sente uma brisa fria passando por ele como um aviso.
Para, olhando para a estrada, onde os carros passam rapidamente.
O som do motor de um caminhão ressoa e ele sente algo dentro de si, como um impulso desesperado.
John dá um passo à frente, e então outro, sentindo o chão sob seus pés enquanto sua mente se esvazia.
O caminhão se aproxima, e naquele instante de fragilidade, ele faz a escolha. O mundo ao seu redor parece parar enquanto o caminhão se aproxima, um momento final em meio ao caos.
TUDO ESCURECE
Escuta-se o som do impacto e, então um...
...silêncio se instala, enquanto tudo parece ter um fim.
FADE OUT
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- Essa é uma história fictícia e sensível de algo que trata temas profundos e intensos. Se você ou alguém que você conhece está passando por dificuldades ou pensamentos suicidas, é essencial procurar ajuda profissional. Há pessoas que se importam e que podem oferecer apoio. -
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