Entre a Fé e o Desejo - literário
A tempestade rugia sobre os campos como uma fera ancestral, sacudindo os céus com trovões que pareciam anunciar o fim dos tempos. A pequena capela de madeira, esquecida entre as curvas de uma estrada rural, resistia ao tempo e ao clima como um refúgio solitário de fé. Relâmpagos cortavam a escuridão, revelando sua silhueta encharcada no topo de um morro, cercada por mato alto e o silêncio das coisas que esperam demais.
Entre as sombras, uma mulher caminhava com passos firmes, mas pesados. Helena. Vinha sozinha, uma mala de couro batido na mão, o vestido branco colado ao corpo pela chuva persistente. Cada passo seu era como uma lembrança que a terra esquecida parecia reconhecer — como se o solo soubesse que algo estava para acontecer. Parou diante da porta de madeira da capela. Inspirou profundamente.
Bateu. Uma vez. Duas.
O som ecoou como um chamado.
Por um momento, apenas o rangido da chuva. Silêncio.
Então, a porta se abriu.
Ali estava ele. O padre.
Elias, trinta anos, rosto jovem cansado. Vestia uma batina desbotada, o colarinho amarelado pelo tempo. Segurava uma lamparina que desenhava sombras no rosto da visitante.
— Boa noite... está perdida? — perguntou, com um tom neutro, cauteloso.
— Acho que encontrei o lugar certo. Pode me deixar entrar?
Sem palavras, ele cedeu espaço.
No interior da capela, o aroma antigo de madeira molhada e cera derretida recepcionava Helena. As goteiras pontuavam o silêncio como pequenas orações caídas do teto. O padre fechou a porta atrás de si e disse, com voz baixa:
— Mesmo nas tempestades, todos são bem-vindos na casa de Deus, dona...
— Helena. Me chamo Helena. E o senhor... padre?
Ela estendeu a mão, molhada e trêmula, ainda que firme. Ele hesitou.
— Elias. Padre Elias.
Ela recolheu a mão, um pouco desconcertada. Seus olhos pousaram sobre o altar, no Cristo crucificado. Uma inquietação percorreu-lhe o olhar.
— E você, padre Elias... você também acolhe a todos nas tempestades?
Ele respirou fundo.
— Eu sou apenas o porteiro.
As mãos se encontraram brevemente quando ele lhe entregou uma toalha branca. O toque foi rápido, mas não passou despercebido. Ela se envolveu com a toalha em silêncio. Às vezes, o silêncio pesa mais do que a palavra.
Mais tarde, já num quarto simples anexo à capela, Helena sentou-se diante de uma vela sobre uma cômoda antiga. Tirou os sapatos com lentidão. Ainda molhada, seu corpo parecia trêmulo, mas seus olhos estavam alertas.
O padre apareceu com uma caneca de chá fumegante.
— Camomila — disse, com um sorriso tímido. — Acalma o corpo e... também a alma.
Ela o fitou ao pegar a caneca.
— O senhor acredita mesmo que a alma pode ser acalmada?
Ele hesitou, mas respondeu, fixo nela:
— Acredito. Pelo menos... tento acreditar. Todas as almas merecem e precisam ser acalmadas.
Helena abaixou os olhos. Havia dor em suas palavras.
— Eu costumava tentar também. Mas depois... aprendi que algumas almas nascem em guerra. E aí, padre... uma vez na guerra, a alma está presa. É difícil fugir.
O silêncio voltou, grosso como a neblina lá fora. Elias desviou o olhar, puxou a cortina da janela e observou a chuva que não cessava.
Horas depois, encontrou-se ajoelhado diante do altar. A sombra da cruz recaía sobre ele. Helena aproximou-se em silêncio, agora com um xale de crochê nos ombros.
— Tem medo de mim? — sua voz era grave, quase um sussurro. — Ficou incomodado com a minha presença...
Ela parou ao lado dele.
— ...eu posso ir embora, se...
— Não! — ele a interrompeu, apressado. — Não precisa ir. Eu só...
Fez o sinal da cruz com olhos baixos, levantou-se e ficou ao lado dela. Por um instante, seus olhos se encontraram. Havia história ali. Havia dor.
— Eu só tenho medo do que você me lembra...
— E o que eu te lembro, padre?
Demorou para responder.
— Do que eu enterrei. Do que eu fugi. Da vida antes da batina.
Ela se aproximou, tocou o rosto dele com uma ternura ousada.
— Então talvez eu não seja do mal. Talvez não seja uma tentação...
Seus olhos ardiam. Sua voz era a lâmina e o bálsamo.
— Talvez eu seja a sua verdade.
Elias se afastou bruscamente. Estava em conflito. Seus olhos percorriam a igreja como se pedissem socorro às imagens dos santos.
— Eu fiz meus votos. Esta é minha vida. Seguir o caminho de nosso Pai. Levar sua palavra...
— Você fez... ou usou os votos como fuga?
Na madrugada, diante da vela acesa, o mundo parecia parado no tempo.
Helena estava diante dele. Próximos. Tão próximos.
E então o beijo.
Primeiro lento. Depois, urgente. Um beijo entre o que se deseja e o que se nega. Um beijo de fronteira.
Mas Elias se afastou bruscamente, tomado pelo desespero.
— Meu Deus... me perdoa. Eu não posso... eu não posso fazer isso!
Ajoelhou-se, chorando.
Helena se aproximou, serena, com a voz baixa e cortante:
— Deus já te viu nu por dentro, Elias. A única pessoa que ainda te julga... é você mesmo.
Ela tocou o ombro dele.
— Eu vim aqui para te mostrar o caminho que você deve seguir.
Lá fora, um clarão cortou o céu. O trovão estremeceu as paredes frágeis da capela. Elias permaneceu ajoelhado, o rosto coberto pelas mãos, o corpo tremendo.
Ao amanhecer, a chuva havia cessado. O mundo parecia lavado, mas não limpo.
Helena caminhava pela trilha lamacenta, deixando a capela para trás, a mala em uma das mãos e o passado em cada pegada.
Na porta da capela, o padre a observava. Entre seus dedos, o terço.
Seu olhar era um mistério: libertação ou ruína?
Uma lágrima escorreu, silenciosa.
E o dia, enfim, começou.
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