Um presságio na Estância

Teresa, mulher valente, guerreira e dedicada daquelas terras, pegou aquela vela branca entre as palmas ásperas de suas mãos como quem empunhava uma espada que serviria para salvar a própria vida. Fechou os olhos esverdeados e lacrimejados e começou a rezar. Ela tinha certa intimidade com Nossa Senhora. Todos os dias, sem faltar, quando acordava, no meio da tarde e antes de dormir, ela encostava no oratório com uma vela na mão e um terço na outra. Fazia os mesmos pedidos colocando a mesma força em cada palavra. Nossa Senhora já conhecia Teresa de tempos. Viu-a chorar a morte de seu marido Pedro Tenório e amparou-a com sua graça quando o baixaram naquela cova em meio aos campos verdes da Estância. Foi Nossa Senhora quem a ajudou adormecer na primeira e longa noite sem o seu companheiro. Nossa Senhora conhecia bem os percalços da grande guerra que pintava de rubro os campos riograndenses, sentia as angústias das mulheres nas estâncias espalhadas pela república e amparava uma a uma com todo o poder divino que lhe pertencia. 

 

Teresa acomodou com cuidado a vela no oratório. Observou a chama que se elevava por um momento inquieta. “Alguma criança deixou uma janela ou porta aberta por aqui e Josefa não fechou”, pensou ela. Procurou, mas nada encontrou fora do normal. Tudo estava fechado como de costume, pois fazia um frio intenso lá fora e a ordem era que as criadas mantivessem o casarão fechado para que as crianças não se resfriassem nos dias úmidos e gelados do pampa gaúcho. E a vela continuava a subir e descer a sua chama. Será que aquilo era um sinal de que Nossa Senhora estava lhe ouvindo? Será que tinha algo que Ela queria que Teresa soubesse? 

 

“Esta vela não está firme”, disse Teresa em voz alta. Então pegou-a com sua mão esquerda a fim de acomodá-la melhor no oratório e já fazia o sinal da cruz com a mão direita quando uma porta bateu fortemente em algum canto do casarão seguido de um grito de mulher cortando o silêncio daquela noite. Teresa tomou um susto e a vela caiu de suas mãos com as chamas ardentes bem próximas da janela, das cortinas de tecido que ela mesmo bordara em noites passadas. Em questão de segundos, diante dos seus olhos esverdeados como àqueles campos, as cortinas estavam pegando fogo e as chamas tornando-se mais intensas num vermelho cor sangue jamais visto. Teresa gritou...gritou desesperada tapando o rosto com suas mãos ásperas, mais ainda imóvel sem poder de reação diante das chamas que se alastravam. 

 

Josefa, uma criada negra, gorda e com um lenço amarrado na cabeça chegou correndo e viu Teresa ajoelhada diante do fogo, exalando o cheiro forte de fumaça e prestes a desmaiar. Antes de qualquer sinal de reação a negra fez o sinal da cruz com os olhos esbugalhados e, só depois de alguns segundos tomou alguma atitude. Pegou uma vassoura de guanxuma escorada em um canto e tapeou várias vezes a cortina com força até que a mesma caísse do trilho. Continuou a bater até o fogo cessar deixando aquele cheiro pesado pelo ar. Jogou a vassoura e correu acudir a patroa. “Tudo bem com vosmecê?”, perguntou assustada e lhe ajudando a levantar, colocando-a sentada em uma velha cadeira de balanço perto de outra janela. 

 

Teresa tinha seus olhos verdes cobertos de horror. Fitou a noite fria e escura lá fora e lágrimas começaram escorrer pelo seu rosto. “Eu vi”, disse ela com uma voz rouca que quase não saiu de sua boca. “Viu o quê?”, perguntou a negra. “Esta maldita guerra já levou meu homem e agora vai levar meu menino, Josefa”. 

 

A criada ficou sem palavras. Sabia que Teresa desde menina tinha este dom de ver certas coisas que poderiam acontecer. Segurou as mãos da patroa entre as suas. Nos seus olhos estava brilhando a chama do medo. Teresa então, acomodou-se nos braços fortes daquela criada que tanto confiava e chorou baixinho. Chorou como nunca tinha chorado. Por antecedência? Talvez. Mas ela, mais do que ninguém, sabia que a dor que estava por vir seria mais arrebatadora do que qualquer dor que ela já sentiu. 

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Quando o outono chegou, trouxe consigo luzes ímpares que alongavam a silhueta do gado pelo pasto, e que derramavam suas cores pelos campos como se fosse um véu. Era a estação que trazia aromas diferenciados e sua brisa fria durante as madrugadas era um convite para o aconchego das lareiras e rodas de mate. O outono tinha um ar mágico que fazia bem para a alma dos gaúchos, mas não...não naqueles tempos de guerra. 

 

A noite derramou devagarzito as suas sombras. Bento Mariano, filho de Teresa e Pedro Tenório, um rapaz esbelto e de porte alto, estava à espreita sentado em um pelego negro agarrado à sua arma. Desde a morte do seu pai, ele é quem agora comandava esta tropa e fez questão de ficar de vigia enquanto seus homens descansavam. 

 

O piar de uma coruja empoleirada em alguma cerca quebrou o silêncio daquela noite. Bento Mariano tinha cochilado e não notou o movimento de uma tropa imperial que se aproximara. Eram aproximadamente uns setenta soldados e já cercavam o acampamento farroupilha atrás do mato que se estendia. Bento acordou seus quarenta homens, que levantaram atordoados agarrando-se às suas armas. Neste momento os relinchos dos cavalos alvoroçados já se misturavam ao chirriar da coruja e ao som da trombeta imperial soando ao longe. 

 

Então tudo foi tomado pelo barulho de um tropel. A cavalaria imperial avançou em direção ao seu inimigo e o choque das tropas levantou uma nuvem de poeira, gritos e relinchos. Bento era um exímio combatente, herdou isso de seu falecido pai. Peleava com um sorriso estampado no rosto e com uma bravura jamais vista. Tinha tombado do seu mouro e lutava com seu sabre contra vários imperiais ao mesmo tempo. O combate corpo a corpo formava uma coreografia pelas campinas escuras onde o sangue pintava de vermelho os pastos verdes. 

 

Os imperiais estavam em uma vantagem absurda. Bento notou isso ao ver vários de seus homens caídos, feridos ou mortos. Ordenou que debandassem para o sul e assim os poucos sobreviventes fizeram. Bento, com a raiva dentro de sua alma, ainda peleava com seu sabre e também com uma boleadeira, herança de seu velho pai. Feria e também era ferido. Feridas que começaram a surtir efeito. Então Bento Mariano de Costa e Silva tombou em meio àquelas coxilhas. O sabre caiu ao seu lado, assim como a boleadeira. Sentiu um arrepio percorrer o seu corpo e um gosto amargo na boca. Pôs a mão na barriga e notou um sangue grosso, vermelho e vívido ser bebido pelo solo fértil daquelas terras. Virou o rosto e pôde ver a coruja piando empoleirada na cerca ao longe, com seus olhos arregalados lhe encarando. Tossiu e cuspiu sangue. Sabia que este era o seu fim. 

 

Um soldado imperial avançou a cavalo na sua direção com sua adaga em riste. Apeou quando Bento tentava ainda se reerguer mostrando toda sua bravura e colocou a adaga próxima ao peito do farroupilha. A lâmina afiada estava coberta de sangue e, num golpe seco e certeiro subiu um pouco e foi cravada no pescoço de Bento, que arregalou os olhos e abriu a boca...sem palavras. Agora o pampa todo era um único silêncio e nada mais importava senão aquela adaga e aquela morte. 

 

Em questão de minutos mais nenhuma alma viva habitava aquele lugar. Apenas os corpos misturados de farroupilhas e imperiais cobriam os pastos caídos, sem vida, enquanto a mesma coruja insistia em chirriar abismada com o que acabara de presenciar. Os poucos sobreviventes da tropa de Bento se debandaram para o sul e depois para o leste, fazendo o contorno nas fazendas vizinhas para poder retornar ao local de combate e recolher os seus a fim de levá-los para suas esposas, mães e filhos. 

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Aquela maldita guerra revolucionou a vida no Rio Grande. Levou maridos e amantes. Levou filhos, levou pais. O dia estava triste e um ar gelado cortava fazendo todos se aquecerem em seus palas e xales. As mulheres vestiam preto e os homens seguravam seus chapéus em sinal de respeito. Teresa não saiu do lado do filho, que era velado na mesa da sala, com um círio de cada lado. O velho padre Dirceu rezou por todos os homens que lutavam pela causa riograndense e pediu em suas orações pelo fim da guerra. As lágrimas insistiam em escorrer pelo rosto de Teresa enquanto uma raiva tremenda ia se traduzindo em sua face angustiada. Porque ela tinha que viver tudo aquilo novamente? Um dia enterrara seu marido e no outro o seu filho. O que ela tinha feito de errado para merecer aquilo? O cheiro da morte parecia lhe rondar e a rondar toda a Estância, todos aquelas terras. Se debruçou e chorou sobre o peito de Bento Mariano soluçando até ser amparada pela negra Josefa, sua fiel escudeira. 

 

Uma pequena procissão seguiu pelo jardim florido até a cova. O padre abriu uma bíblia e começou a ler um trecho enquanto todos rodeavam o caixão. Um sol tímido se pôs atrás de uma coxilha e o ar ficou pesado. Em questão de alguns minutos um primeiro punhado de terra caiu sobre o caixão de Bento Mariano e a terra estalou naquela madeira rude com um baque seco e triste que durou dias e dias na Estância. 

 

Antes do fim ainda muitas batalhas se sucederam por àquelas coxilhas. Entre vitórias e derrotas, vidas foram levadas, sonhos foram desfeitos e amores foram separados. Para que no futuro alguns pudessem triunfar, outros do passado tiveram que sofrer. Teresa nunca se acostumou com aquilo. Seu luto foi eterno. Perdeu marido e filho para a maldita guerra. Sofreu em silêncio. Chorou as angústias recolhida em seus aposentos ou diante das lápides dos seus. 


Os dias passaram e a tristeza jamais deixou aquela Estância. Para Teresa era como se cada flor murchasse em cada alvorecer, mesmo naqueles em que os soldados farroupilhas chegavam comemorando alguma vitória em suas batalhas. Nada mais tinha cor. Nada mais tinha graça. Foi quando enquanto galopava solita pelas coxilhas em um final de tarde, ela teve a certeza do que fazer. Apeou do zaino e sentou-se na beirada de um riacho. Lavou o rosto enquanto observava as rugas que mostravam o tanto cruel é o tempo. Este não falha, ele apenas chega devagarzito e vai consumindo sem dó.  Deixou algumas lágrimas escorrerem pela face e então montou novamente no seu cavalo retornando para a Estância.

 

Teresa abriu a gaveta debaixo da sua penteadeira. Vasculhou e puxou lá do fundo uma pequena adaga prateada. Desembainhou-a e acariciou a lâmina bastante afiada e nunca usada. Aquela adaga pertencia ao seu velho marido Pedro Tenório. Encarou seu reflexo cansado no espelho e acariciou a lâmina sobre sua garganta, sentindo a frieza da arma branca. Não fazia mais sentido viver. Para quê? Para ver cada vez mais e mais mulheres passarem pelas mesmas angústias e nada poder fazer? Ver outras manhãs, ver outras tardes todas iguais? Longos segundos se passavam. Aquela adaga pesava na sua mão. A lâmina aguardava uma decisão. 

 

 

 


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