O Prisioneiro

Ouvi os passos pesados do agente Rodrigues e vi um clarão ao longo de todo o corredor 7. Eu estava usando a calça laranja do uniforme da penitenciária e sem camisa, pois fazia um calor infernal naquela noite. Fiquei sentado na velha cadeira de palha de frente para as grades da minha cela. Sim, vinte anos trancafiado naquele lugar eu já tinha algumas regalias e, uma delas, era uma cela somente pra mim.

Os passos firmes se aproximavam cada vez mais até que aquele sujeito uniformizado parou de frente para mim do outro lado da grade... 

- Boa noite, bandido. - disse ele com o seu tom de voz firme e de poucos amigos. 

Sorri e lhe contribuí a gentileza. Rodrigues se fazia de durão, mas no fundo era muito gente boa. Um cara de família, pai dedicado, marido amoroso. Estava perto de se aposentar. Contava os dias para isso acontecer. E eu torcia por ele. Agente Rodrigues merecia tudo que há de bom nesta vida. 

Ele me alcançou um bloco de anotações pela grade. Tirou uma caneta do bolso de trás da calça e me entregou. Agradeci e ele sorriu. 

- Que vai fazer, bandido? Cartinha pra nova namorada, é? - pediu Rodrigues. 

Encarei aqueles olhos castanhos e grandes e disse que pela manhã ele saberia. Pedi, por gentileza, que se retirasse e me deixasse à sós. Prontamente fui atendido. 

- Não vou poder deixar tudo aceso pra ti, bandido. Apenas a lâmpada aqui da frente. - me disse Rodrigues olhando para a lâmpada amarelada acima da minha cela. 

- Não tem problema, eu bato na grade quando tiver terminado e tu apaga tudo - respondi. 

Tenho mofado na minha cela nesta penitenciária imunda por vinte anos. Escrevo esta carta porque sinto que a vida em meu corpo está desaparecendo. Sinto necessidade, não somente de confessar meus pecados, mas também de alertar a quem esta carta possa chegar sobre os perigos sobrenaturais que são terrivelmente ignorados por todos. 

O ano era 2000 e eu era um jovem de 24 anos de idade. Cheio de vida, trabalhador, honesto e, suficientemente, simpático para não me faltar moças para galantear. Era morador de uma cidadezinha miserável no sul do país e vivia com meus pais, minha irmã Geórgia e meu irmão Jaques, ambos mais novos que eu. Certa noite acordei com um frio fora do comum e estava sentindo uma sensação muito estranha, como se alguém estivesse me observando. Sentei e liguei a luz do abajur que ficava sobre o criado mudo ao lado da minha cama. Olhei em volta e tudo parecia normal, porém, aquela sensação estranha persistia. Tentei lembrar se podia ser um pesadelo, mas tinha certeza que não. Apaguei a luz e voltei a dormir. 

Nas noites que seguiram o mesmo acontecia. Acordava e aquela sensação de que parecia que alguém estava comigo permanecia e, cada dia mais forte. Fiquei preocupado, conversei com meus pais, mas eles me ignoraram. Depois de passar algumas semanas eu já estava acostumado com aquilo. Acordava no meio da noite, quase sempre às 03:00 horas, e voltava a dormir sem me preocupar. Este foi o meu grande erro. Ignorar o que não poderia ser ignorado. Amigos e familiares começaram a reclamar do meu comportamento. Diziam que eu andava nervoso, distraído, violento e sempre pronto para proferir palavras ásperas contra eles. 

Então aquele sentimento bizarro começou piorar. Houve a primeira ocasião onde eu tive a certeza que não estava sozinho, que realmente havia alguém, ou algo, comigo durante as noites. Eu abri os olhos e não conseguia me mover. Tentei de todas as formas, mas o meu corpo não obedecia. Olhei com terror para um canto do quarto e vi o que parecia ser uma pessoa, não deste mundo, pois era uma sombra esfumaçada que ali se apresentava. Aquela coisa começou a se mover em minha direção e eu, aterrorizado, tentei gritar. Porém, meu grito parecia ser abafado como se milhões de mãos apertassem o meu pescoço. Fechei meus olhos por alguns longos segundos e quando abri senti que novamente era o mestre do meu corpo e, apesar de uma leve dormência, este obedecia aos meus comandos. O quarto estava vazio. Dormi o restante da noite com a luz acesa e na manhã seguinte contei para minha família o que tinha acontecido. Minha mãe disse que ia procurar um padre, meu pai ignorou minhas palavras e Geórgia e Jaques riram da minha cara. 

Todas as noites aquela coisa aparecia, me imobilizava e desaparecia. Foi então que criei uma espécie de vínculo com ela. Não nos falávamos, mas comecei gostar daquela sensação desconfortante. Aquele estado emocional que me deixava eu não conseguia descrever, não era bom, mas de alguma forma eu gostava e aquela minha fraqueza foi o que me levou ao meu ato de perversidade final. 

Me lembro bem, era dia 20 de março de 2000 e eu me sentia cansado e depressivo. Os eventos sobrenaturais sugavam minha energia noite após noite e de alguma forma eu perdia o controle do meu corpo. Naquela noite eu acordei e o relógio havia parado em 03:00 horas em ponto. E ali estava o espectro outra vez, mais nítido e mais perverso. A coisa se levantou e começou se aproximar da cama. Eu podia sentir o seu cheiro. Tentei me libertar das correntes invisíveis que me prendiam, queria correr, pois sentia que algo ruim estava para acontecer. Aquela coisa deitou em cima de mim e começou a sussurrar algo em meu ouvido. Ainda hoje não sei o que dizia, mas sei que era maligno e hipnotizante. A minha visão estava desaparecendo. Minha alma estava sendo sugada até que perdi minha consciência. Um grito alto e forte me despertou. Abri os olhos e me deparei com a bota de um policial me acertando em cheio no rosto. Fui jogado ao chão ao mesmo tempo em que policiais me seguravam e um outro me algemava. Olhei em volta da sala bagunçada e vi os corpos dos meus pais e dos meus irmãos com os membros dilacerados. O sangue no meu corpo denunciava que eu era o autor daquele crime bárbaro. O sangue da minha família na minha boca anunciava que aquele era um crime muito, muito grave. Comecei a chorar desesperado, mas quando vi já estava sendo jogado na traseira de um camburão. 

Muitas vezes já pensei em tirar minha vida. Se é que isso pode se chamar de vida. Mas nunca fiz...até que semana passada, nos exames rotineiros por aqui, descobri que sou portador de uma doença que avança dia após dia e está deixando o meu fim cada vez mais próximo. Estejam sempre vigilantes e não se deixem levar pela falta de cuidado. Conheço outras histórias semelhantes à minha, todas envolvendo entidades, demônios, diabo ou espírito maligno. Eles querem nossa alma e nos utilizam como veículos para matar suas sedes insaciáveis de sangue. 

Dobrei aquele pedaço de papel, fechei a caneta emprestada por Rodrigues, me levantei e bati na grade de ferro da minha cela, deixando aquela carta cair ali mesmo. Em questão de segundos a luz amarelada em frente à minha cela foi apagada. Me dirigi até o espelho trincado na parede e forcei para tirar um pedaço pontudo. Estendi meu braço esquerdo sobre a pia enferrujada e comecei a cortar minhas artérias. A dor era insuportável. Senti as lágrimas involuntárias escorrerem pelo meu rosto e pingarem se juntando ao sangue que jorrava e escorria do meu braço. Tudo apagou... 

Na manhã seguinte o agente Rodrigues foi verificar as celas como fazia em todas as manhãs. Ao chegar em frente à cela de James Mendes encontrou o pedaço de papel caído ao chão e um rio de sangue chegando ao corredor. Imediatamente abriu a cela já chamando por ajuda. Entrou e, para sua surpresa, James saltou sobre suas costas lhe atingindo diversas vezes contra seu pescoço com um pedaço de vidro. Quando caíram no chão ensanguentado, chegaram mais dois policiais. Eles apontaram suas armas para James, que ergueu as mãos e sorriu de uma forma estranha. Com a arma em punho, um policial foi se aproximando lentamente e acertou uma coronhada em sua cabeça. James caiu desacordado e foi levado para a ala psiquiátrica.


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