A Escudeira de Gudwangen 18


Kapittel atten

XXXIV - Uma nova era

- Parede de escudos! - ouvia-se os nórdicos gritando e o som das espadas cristãs batendo contra a proteção dos guerreiros vikings.

- Parede de escudos! - repetiam os nórdicos mantendo a guarda.

Tudo estava envolto de uma neblina que não se conseguia ver um palmo à frente. Thórin era o líder daquele grupo que gladiava naquela região contra o dobro de soldados cristãos.

- Homens, firmes! - disse Thórin. - Eles vão continuar golpeando. - ele completou.

E foi assim mais três vezes. Os nórdicos, espiando através das frestas dos escudos, obedeciam ao comando de "parede de escudos" e firmavam a proteção à cada ataque cristão.

- Na próxima vez nós vamos surpreendê-los. - disse Thórin em língua nórdica para não ser compreendido pelos adversários. - Quando recuarem se preparando para o próximo ataque, nós contra atacamos. - ele completou seu plano.

Atrás da parede de escudos os guerreiros nórdicos firmaram suas espadas e machados. O sangue em seus olhos mostrava o quanto aquilo era importante para cada um.

Os soldados de Estherood II recuaram em preparação ao ataque seguinte. Foi neste momento que veio o contra-ataque dos nórdicos.

- Atacarrrr! - gritou Thórin sendo o primeiro à se reerguer e correr de encontro aos cristãos.

Os demais guerreiros o seguiram aos berros intimidando aqueles soldados, que ficaram boquiabertos com a fúria daqueles homens nórdicos. A ferocidade com que atacaram não restava dúvidas de que eram os maiores guerreiros já vistos. Assustados, alguns soldados cristãos recuaram imediatamente enquanto outros tentaram encarar a fúria nórdica, em vão. O tilintar de espadas e machados decepadores de membros mancharam de sangue as ruelas do vilarejo.

Kaira, com sua espada e seu escudo à postos, surgiu de trás de um galpão e parou há alguns metros dos soldados que tentavam escapar. Em questão de segundos, outras dez escudeiras surgiram atrás dela e ficaram posicionadas com suas armas esperando ansiosas pela ordem de ataque. Aqueles soldados ficaram imóveis em meio à neblina daquele rua. Voltar e bater de frente com quinze bravos guerreiros nórdicos sedentos por sangue ou seguir em frente e encarar a destreza e coragem daquelas onze escudeiras? A verdade é que eles estavam encurralados. Estherood II olhava incrédulo para ambos os lados e só via o medo no olhar de seus homens.

- Coragem, homens! - dizia ele tentando encorajar os seus soldados.

Eram doze soldados restantes. Talvez fosse mais fácil encarar aquelas escudeiras. Mas sabia que tão logo atacassem, já teriam a companhia dos demais guerreiros. Estherood II parou em frente aos seus homens.

- Em nome de Cristo, nós não vamos desistir agora. Se Deus nos colocou em frente à esta provade fogo, nós não vamos deixar que estes pagãos malditos mudem nosso destino. Vamos lutar! Em nome de Merliensen. Em nome de Baliensen. Em nome de Nielisen... - disse o jovem rei.

Estherood II se virou para o lado das escudeiras e todos os seus soldados prepararam suas armas.

- ...em nome do meu falecido pai e rei eterno de vocês. Em nome de Estherood! - gritou ele enquanto começavam correr na direção das escudeiras de Gudwangen.

- Não se apavorem, escudeiras. - disse Kaira já batendo sua espada contra seu escudo.

As comandadas pela jovem de cabelos vermelhos se posicionaram à espera do combate.

- Atenção, escudeiras...atacarrrr! - ordenou Kaira começando a correr de encontro aos soldados cristãos.

Era praticamente um contra um, sobrando apenas um soldado cristão. Mas o fato de estar em desvantagem numérica não foi nenhum problema para aquelas guerreiras. Um a um aqueles soldados intitulados "guerreiros de Cristo" iam caindo. Estherood II, que ficava mais na retaguarda sendo o homem que sobrava, via seus comandados sucumbirem. Pegou o escudo de uma adversária que foi ao chão e tentou esconder-se com a espada em mãos em meio à forte neblina. Seu ferimento voltava a ser um problema para ele. Sentou-se atrás de uns escombros gemendo de dor e observando o cenário nada favorável. Kaira olhava em volta e viu que a batalha estava ganha, mas não via o rei em lugar nenhum.

Thórin e seus guerreiros surgiram em meio à densa névoa. As escudeiras comemoravam a vitória batendo seus machados e espadas contra seus escudos. Algumas feridas, outras não. Mas o mais importante, nenhuma vida perdida. Kaira viu e ouviu algo se mexer atrás daqueles escombros. Pegou o arco com um guerreiro e posicionou a flecha procurando um melhor ângulo para enxergar, já que a neblina tornava tudo obscuro.

O rei Estherood II tinha retirado a armadura e estava desprotegido. Gemia baixinho. Kaira, há alguns metros de distância, viu quem era. Mirou, puxou a corda do arco e soltou. A flecha dançou em meio à névoa e atingiu o peito do lado direito. Com a presa fácil, ela jogou o arco ao chão, pegou novamente sua espada e foi em direção à Estherood II. Thórin, notando que a jovem tinha se afastado, foi conferir. Quando a viu, ela já estava erguendo a espada para o alto e cravando-a no meio do peito do rei.

XXXV - Gudwangen livre de cristãos

Um rio de sangue escorria pelas ruelas de Gudwangen até se juntar com a água do mar. Thórin e Kaira permaneceram sentados lado à lado a noite toda e viram quando o sol nascente iluminou com seus raios as espumas brancas das ondas tornarem-se rubras com aquele sangue nórdico e cristão misturados.

- Precisamos nos livrar de todos estes cristãos. - disse Thórin.

Kaira apenas observou.

- Temos uma pequena e difícil última missão, Kaira. E temo que pode ser um pouco complicada adecisão pra você. - continuou o Earl.

Kaira virou seu rosto novamente para o mar.

- Castelli e o monge, não é? - perguntou ela.

- Sim. Aqui não podem ficar. E soltá-los vivos não está nos meus planos. Não depois de tudo o que aconteceu. Nosso povo não iria me perdoar. - respondeu Thórin.

- Então... - começou Kaira enquanto desenhava com sua adaga na areia molhada da praia. - deixa eu resolver as coisas com Castelli e você faz o ritual no monge. - completou ela.

Thórin olhou para o desenho que ela fazia na areia e entendeu o recado. Kaira finalizava com sua adaga, a figura de uma águia. Ela olhou para o Earl e sorriu.

- Eu sempre quis ver como que é. - disse a escudeira de cabelos vermelhos.

Mais tarde

O estrondo da porta do galpão velho e abandonado se abrindo despertou o jovem Castelli e o monge Bishesmun no lugar onde permaneciam aprisionados. Thórin, segurando seu machado surgiu com o seu olhar impiedoso e foi logo agarrando o monge pelo braço. Levantou-o e ficou segurando enquanto encarava o jovem atordoado.

- Acabou pra vocês! - disse o Earl.

Kaira entrou em seguida e foi na direção de Castelli. Ele, alimentando a esperança de que ela estivesse ali para novamente ajudá-los, sorriu discretamente, mas logo estranhou a frieza da jovem.

- Kaira? - questionou ele enquanto ela o pegava por baixo do braço e o fazia levantar.

- O que tá acontecendo? - atônito, perguntou o monge.

- Quieto. Fica só olhando, que contigo eu resolvo depois.

Kaira retirou sua adaga da cintura e chegou bem próxima de Castelli. Olhou em seus olhos arregalados e sorriu.

- Sabe, Castelli. Todos estes anos aqui eu alimentei uma falsa esperança...algo dentro de mim dizia que minha mãe poderia estar viva e aí tudo podia mudar. Mas, você veio e me disse ao contrário. E depois teu povo cristão veio e matou aquela que fazia o papel de minha mãe. - disse a jovem.

- Eu não tenho culpa, Kaira. E tudo que passamos na infância juntos, não conta? - Castelli tentava mudar a cabeça de Kaira.

- Vocês, cristãos, não são os únicos culpados por isso. - disse Kaira colocando a ponta da sua adaga na garganta de Castelli.

Sem mover a arma branca, ela olhou para Thórin, que segurava o monge fazendo-o não desviar os olhos daquela cena.

- O ancião oráculo também vai me pagar por alimentar em mim a esperança de que minha mãe pudesse estar viva. - disse ela.

Thórin apenas sorriu. Sentiu naquelas palavras que nada impediria a jovem de realizar seus desejos. Mas também não queria impedir. Sabia que a guerreira que ela estava tornando-se seria bastante útil para todos. Era o seu destino, era isso que os deuses queriam.

Castelli encarou os olhos da jovem.

- Então tudo vai terminar assim? - questionou ele.

Kaira mudou sua expressão e, por um instante, todos ali acharam que ela poderia ceder, inclusive Thórin.

- Não tem volta, Castelli. Os deuses querem assim. - disse Kaira com um ódio no olhar que Castelli nunca tinha visto.

Lentamente ela cravou a adaga na garganta do jovem. O sangue jorrou em seu rosto e ela nem se importou. Bishesmun forçou para virar o rosto e não ver aquilo, mas Thórin segurou sua cabeça de frente para a cena.

- Vamos, Kaira. - falou Thórin.

A jovem escudeira puxou a adaga de volta e mais sangue foi jorrado. Ela segurou Castelli, limpou sua adaga em sua roupa e o largou.

XXXVI - A águia de sangue

Thórin arrastava o jovem monge pelas ruelas em meio ao povo de Gudwangen, que esperavam afoitos pelo desfecho. Kaira os seguia de perto com suas vestes e seu rosto manchados de sangue.

Ao chegarem na praça pública, Thórin não fez cerimônia nenhuma e já foi ajeitando o monge Bishesmun em cima do pequeno palco montado. Deixou sua cabeça e costas abaixadas enquanto a população se aglomerava em volta. Kaira alcançou uma faca com uma ponta bastante afiada para ele e deu alguns passos para trás. Lentamente, Thórin desenhou uma águia com a ponta daquela faca nas costas do cristão miserável, que só gemia.

Thórin virou para seu povo para que todos pudessem ver a figura. Após a escarificação, Kaira entregou ao Earl o seu machado, o qual ele ergueu para o alto para ser abençoado pelos deuses e depois quebrou as costelas do inimigo, uma por uma, sem exibir nenhuma pena. Jogou o machado ao chão enquanto o povo, aos berros, o aclamava abafando o gemido do monge exposto.

Thórin então puxou os ossos e a carne de Bishesmun para fora, dando a impressão de que asas brotavam de suas costas. O monge, ainda resistindo acordado, fez menção de gritar.

- Silêncio, miserável. Os deuses querem o teu silêncio. - disse o Earl.

Então Bishesmun agonizou. Uma escrava surgiu do meio do povo trazendo um recipiente com sal grosso e largou aos pés do Earl. Ele encheu suas mãos de sal grosso e os esfregou nas costas feridas do monge. Foi o golpe que faltava para ele se entregar. Thórin, com suas mãos, puxou os pulmões já expostos de dentro do corpo fazendo com que ficassem por cima das asas. Aquilo dava a impressão de que as asas estavam realmente batendo, pois conforme a respiração do moribundo, os pulmões se enchiam e esvaziavam de ar.

- Amarrem-no em um tronco e deixem-no ali pendurado até a sua morte. - ordenou Thórin limpando o sal grosso que ficara nas mãos, naqueles órgãos que, aos poucos, tornavam a respiração mais difícil.

XXXVII - O acerto de contas

Dois dias depois e o corpo do monge Bishesmun ainda estava exposto pendurado em praça pública. Kaira atravessou o local, debaixo de uma neblina e de um vento gelado que cortava até a alma, com sua espada na cintura e os cabelos vermelhos presos em uma única trança longa. Parou observando o monge e pensou consigo mesma: " A águia parou de bater suas asas". Sorriu e continuou seu caminho. Seu destino era a tenda do ancião oráculo.

Chegando em frente, viu o local envolto em uma nuvem de fumaça que se misturava à neblina. Empurrou a cortina de paus e entrou na tenda onde viu o oráculo ajoelhado e de cabeça baixa com as mãos abertas lateralmente.

- Kaira, cabelos de fogo, eu estava à sua espera para o meu fim. - disse ele. - Cumpra sua sina, minha jovem. - completou ele.

O ancião oráculo abriu os olhos encarando a jovem escudeira. O cheiro das ervas queimando impregnavam o lugar. A fumaça tornava tudo nebuloso demais. Kaira pegou sua espada e ergueua para o alto.

- Você disse que viva ela podia estar. - falou Kaira.

O oráculo sorriu.

- Algumas vezes os deuses são traiçoeiros, jovem Kaira, cabelos de fogo. Aprenda isso, conviva com isso. Os venere, mas sempre desconfie. Siga a sua mente e, às vezes, o seu coração. Mas nunca deixe que um se intrometa nas decisões do outro. Você saberá como fazer. - disse o ancião oráculo já sabendo do seu possível fim.

E então, a jovem escudeira Kaira, cabelos de fogo, desceu com destreza a sua espada cortando fora a cabeça do ancião oráculo. O canto dos corvos no alto de Gudwangen foi ouvido alto naquele momento. Kaira saiu da tenda e seguiu pela neblina que cobria as ruelas como se nada tivesse acontecido.


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